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Como um tratamento de feridas pouco conhecido levou uma médica a empreender

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_A partir da oxigenoterapia hiperbárica, tratamento criado na medicina de mergulho, a médica Bianca Oliveira estruturou uma rede especializada no cuidado de feridas complexas_

Foi a partir de uma experiência clínica decisiva que a médica, empreendedora e fundadora da Cicatriclin, Bianca Oliveira planejou um negócio que hoje reúne coleções de unidades e planos de expansão internacionais. Criada inicialmente para atender pacientes com feridas complexas em um contexto de deficiência de soluções especializadas, a empresa se tornou uma grande rede dedicada exclusivamente ao tratamento de feridas agudas e crônicas, um resultado direto da experiência da médica na área.

Baiana de Vitória da Conquista, Bianca deixou sua cidade natal ainda jovem para estudar medicina no Rio de Janeiro, onde também se especializou em terapia intensiva. Foi no trabalho em UTIs, com pacientes clínicos graves, que tiveram o primeiro contato com a oxigenoterapia hiperbárica, então pouco difundida no Brasil e praticamente ausente da formação médica tradicional.

A oxigenoterapia hiperbárica é um método terapêutico baseado na inalação de oxigênio a 100% em um ambiente pressurizado, dentro de uma câmara específica, com o objetivo de aumentar de forma significativa a oferta de oxigênio aos tecidos do corpo. Segundo a medicina, o princípio é simples e físico: assim líquido como o gás se dissolve em um quando dirigido à pressão, o oxigênio, em condições hiperbáricas, passa a se dissolver diretamente no plasma sanguíneo, independentemente das hemácias, elevando as ofertas de vezes sua disponibilidade nos tecidos.

Esse aumento favorece a cicatrização, combate infecções, inclusive por atuar como um “terceiro antibiótico” em casos de superbactérias, e melhora a resposta inflamatória e vascular. Apesar dos benefícios, trata-se de um procedimento que exige rigor técnico e supervisão médica, já que envolve pressão sob alta pressão, volátil e perigoso se feito de forma convencional, o que exige controle absoluto de segurança, qualidade dos equipamentos e protocolos clínicos bem definidos.

“Quando eu estava trabalhando com meu chefe na UTI, ele me disse se eu sabia alguma coisa de oxigenoterapia hiperbárica. Eu disse que não, nunca tinha ouvido falar na faculdade. Não era um tema que era levado para a escola”, relembra. À época, o tratamento começava a ganhar espaço não apenas na medicina de mergulho, sua origem, mas também no cuidado de feridas complexas, um problema recorrente entre pacientes internados.

Uma curiosidade inicial rapidamente se transformou em interesse profissional. Incentivada pelo chefe, Bianca desenvolveu a cooperação médica de um serviço de hiperbárica em Niterói, após realizar um curso de formação ligado à Undersea and Hyperbaric Medical Society. Além da atuação clínica, passou a responder também por aspectos de gestão, custos e organização do serviço. “Acabei ficando tanto na parte médica como também na parte de gestão mesmo. Planilha de custo, pagamento, controle. Isso foi me formando também como gestora”, conta.

O retorno à Bahia e a “portinha” que virou empresa

O retorno a Vitória da Conquista aconteceu alguns anos depois, motivado por uma proposta para assumir um serviço local de hiperbárica. Foi aí que a experiência clínica acumulada encontrou um novo problema concreto: a falta quase absoluta de estrutura organizada para o tratamento de feridas. “A gente não tinha o que fazer. Não existia praticamente no mercado, não existia um trabalho organizado para isso”, diz.

A começou solução de forma artesanal. Bianca abriu uma pequena unidade, inicialmente para atender seus próprios pacientes. “Abri uma portinha pequenininha. Eu fazia tudo: recepção, faturamento, recebimentoa o doente. Era tudo eu”, lembra. O que era para ser um complemento clínico rapidamente ganhou escala, impulsionado por convênios e hospitais da região, que passaram a terceirizar a gestão do cuidado com feridas.

A Unimed local foi a primeira a procurar para estruturar um protocolo específico. Em seguida vieram hospitais como o Samur, a Santa Casa e outras instituições. “Eles tinham prejuízos com prejuízos. Eu fiz minhas contas e propus terceirizar”, relata.

O aumento do volume de pacientes exige organização, equipe e método. A experiência familiar com gestão, herdada do pai empresário, foi nesse processo determinante. “Meu pai sempre teve uma atuação em qualidade muito forte. Planilha, controle, sistema, parametrização. A empresa foi nascendo numa velocidade que eu não consigo controlar até hoje”, afirma.

Esse crescimento sustentado pelo pioneirismo e pela demanda reprimida levou às declarações da Cicatriclin como empresa especializada, com atuação hospitalar, ambulatorial e domiciliar. Hoje, a rede realiza milhares de atendimentos mensais, já ultrapassou milhões de curativos realizados desde sua fundação e está presente em 13 estados brasileiros, além de contar com uma unidade internacional.

Franquia, escala e certificações de qualidade

O modelo de franquias surgiu a partir da própria demanda do mercado. Profissionais que visitavam as unidades buscavam replicar o serviço em outras regiões. “Eles tentaram implementar e não conseguiram. Um deles me disse por que eu não pensei em franquia, para conseguir passar todo o know-how”, conta Bianca.

A decisão veio acompanhada de critérios rígidos. Um deles era o custo viável para o franqueado, possível apenas com escala. Outro, a certificação independente de qualidade. A Cicatriclin se tornou a primeira empresa de curativos do Brasil a conquistar a certificação ONA (Organização Nacional de Acreditação, entidade não governamental que certifica a qualidade dos serviços de saúde no Brasil) e uma das poucas na área de medicina hiperbárica para obter o selo, que avalia processos assistenciais, financeiros, jurídicos e financeiros.

Educação, pesquisa e compromisso social

Desde o início, a Cicatriclin foi estruturada com três pilares. Além da operação assistencial, a empresa investiu em educação e produção científica, com parcerias acadêmicas, cursos online e coleções de trabalhos publicados no Brasil e no exterior. Há também uma frente social voltada ao atendimento de populações com pouco acesso a tecnologias avançadas.

Mais recentemente, a empresa passou a incorporar formalmente práticas ligadas a ESG. “Nosso prédio novo vai ser 100% sustentável. Menos papel, processos sem papel, campanhas internas. É um compromisso que a gente decidiu assumir”, afirma Bianca.

A expansão internacional começou pela Argentina, com a abertura de uma unidade em Buenos Aires, e já há contratos para novos países, como Angola e Portugal. O processo, segundo Bianca, exige adaptação regulatória e aprendizado constante. “O que eu não sei, eu busco saber e busco os melhores. Não tem linha de chegada”, diz.

À frente de uma empresa formada majoritariamente por mulheres nordestinas, Bianca não separa empreendedorismo de experiência pessoal. “Empreender como mulher é muito mais difícil. Para a gente ter repetir, parece que temos que provar dez vezes mais”, afirma. Ainda assim, ela se definiu, antes de tudo, como médica. “Eu atendo até hoje. Eu amo medicina, amo o que eu faço.”

Matéria reproduzida da ISTOÉ Mulher

Por: Cristiani Dias

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